Informativos Desafios dos hospitais para o ensino médico

Desafios dos hospitais para o ensino médico

A má distribuição de médicos é um problema universal e sua solução não está somente no estabelecimento de novas escolas.

Em 1971, com o apoio da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), visitei faculdades de Medicina nos EUA e seus respectivos hospitais de ensino, dentro de um programa estabelecido pelo departamento de Estado daquele país. Na ocasião era chefe do departamento de Cirurgia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e o reitor nos havia indicado para assumir a presidência da comissão de criação do futuro Hospital Universitário. Durante minha ausência, o departamento ficou a cargo do professor Lúcio Marchese, que viria a ser também diretor do HU. Alguns aspectos desse estudo de observação foram publicados pelo "Estadão": "Organização de hospitais de ensino", em 14 de maio de 1972 (pg. 208) e também pela UEL, sob a forma de monografia.

Entre as escolas e hospitais visitados estavam: a "Case Western Reserve", em Cleveland; Escola Médica de Ohio, em Toledo, Universidade de Northwestern; Faculdade de Medicina de Miami; Escolas de Mount Sinai, Cornell e Columbia, em Nova York; George Washington, na capital do país, e o Centro de Ciências da Saúde de Stony Brook, em Long Island. Uma das observações mais interessantes que tivemos foi na Universidade de Nova York, em Stony Brook. O planejamento dessa faculdade começou em 1966 com forte orientação para problemas regionais e comunitários. O curso médico começou 4 anos mais tarde com somente 32 alunos. Apesar de não ter o curso de medicina iniciado suas atividades, todos os programas educacionais dos cursos básicos e clínicos já estavam escritos e aprovados; docentes qualificados, selecionados e contratados.

Para a criação de uma nova faculdade de medicina não é somente atender a demanda e/ou pressão de políticos locais ou da execução de decretos presidenciais. As novas escolas médicas dos EUA contam sempre com vários hospitais credenciados e seus médicos mais qualificados recebem títulos acadêmicos, como docentes associados, outorgados pela universidade.

Os hospitais dos EUA precisam ser acreditados para receber pacientes do SUS local, ou seja, Medicare e Medicaid, além de clientes de Seguros Saúde ou Medicina de Grupo. Esta tradição tem um duplo significado positivo: o primeiro é que esses contratos com agências privadas trazem mais recursos aos hospitais e, em segundo lugar, mantêm o corpo docente praticante em "tempo integral" nos hospitais, aptos a serem chamados a qualquer hora, já que estão fisicamente no hospital. Apesar de o Brasil já contar há anos com uma ONG para acreditação de hospitais - a Organização Nacional de Acreditação (ONA), altamente conceituada -, porém ainda não reconhecida pelos organismos governamentais que autorizam o funcionamento de hospitais-escola. Estes hospitais poderiam ser acreditados por esta excelente ONG, independentemente de pressões políticas, já que seu conselho diretor está representado pelas mais reconhecidas entidades do setor saúde brasileiro.

Parece realmente incrível que depois de mais de 40 anos desde nossa publicação no "Estadão" os desafios dos hospitais de ensino continuam merecendo manchetes negativas de diferentes mídias. É preciso recordar que a má distribuição de médicos é um problema universal e sua solução não está somente no estabelecimento de novas escolas médicas, mas nos incentivos monetários para fixação do profissional em áreas menos atrativas financeiramente. O complexo hospitalar do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), reconhecido mundialmente pela sua excelência técnica, só foi possível de concretizar pela política de financiamento através de uma parceria público-privada, já que além de pacientes do SUS, atende também convênios particulares, importante fonte de ingressos. Assim sendo, se estas situações não forem enfrentadas com coragem vamos ter que esperar outros 40 anos para que o Brasil tenha uma formação de médicos do primeiro mundo.

HUMBERTO DE MORAES NOVAES foi o primeiro superintendente do Hospital Universitário de Londrina, ex-diretor executivo do Instituto Central do HC e do Incor e reside em Merritt Island, Florida (EUA).

FONTE: Folha de Londrina